domingo, 24 de outubro de 2010

Copiii întunericului.

Vós sois os filhos de Caim, os renegados. Eu estava lá quando tua carne ressecou, quando vossa existência tornou-se putrefata e a repugnância adentrou aos vossos orbes talhados, encarando ao vazio dentro de cada gota puríssima de orvalho que subsistia a grama verdejada. Eu estava presente quando refugiaram-se aos becos e a escuridão a qual foram fadados. Eu vi o destroçar de almas inocentes e presenciei toda a ascensão do terror ante as amedrontadas faces humanóides. Teus poderes amaldiçoados a mim não se podem comparar, jamais obtivemos o mesmo impacto, embora a nossa destruição fosse em suma de uma semelhança sutil. Vós sóis as crianças da escuridão, fadados eternamente a caminhar sobre os rochedos deste mundo. E eu sou o Senhor da Escuridão, fadado eternamente a observá-los em companhia.

sábado, 9 de outubro de 2010

O beijo do Vampiro.

1/31.


Eram tempos em que a escuridão reinava em decreto e lei, e ser o Senhor dos Tempos talvez lhe trouxesse apenas frascos empoeirados transpostos em amargura. Os becos álgidos imersos a maré cinza soavam-lhe atraentes como deleitoso passatempo humano. Caracterizava a cada doentio amanhecer o idealizar de teus sadistas prazeres. Desmembrar a cada habitante que por ali sofria por refúgio, arrancar-lhes aos corpos atarefados um vocábulo gentil, um grito prazeroso e uma proporção abusiva de puro sangue. Rasgar-lhes a pele, romper-lhes os canais venosos, coletar-lhes, ainda quente, e consumir-lhes enquanto fresco, bebericando ao veneno em via da própria fonte.

Onde estaria a sua doce donzela, agora, se não chorando aos teus braços enquanto rogava-lhe por todo o amor que pudesse disponibilizar-lhe? Onde estaria, senão deleitando-se aos olhos profundos, ao desejo sutil, a lúgubre proposta que lhe tentava além de teus próprios valores familiares e todo o costume pregado pelas clássicas gerações de tua prodigiosa antecedência? Oh, mas que renome deveria sustentar! E entregava-se assim, sem temer ou reconsiderar, elevando o seu tom de voz a cada ínfimo toque, a cada penetrada elaborada, a cada mordiscar de seus lábios carmesim. Deixando fluir em procedência todo o seu nobre sangue, deixando escapar por entre as tuas coxas o néctar bem aventurado, tua pureza despencando-lhe ao que o sublime par de olhos amendoados empenhava-se em analisar o cenário desdenhoso, sem lençóis de pura seda ou vinhos caros. Desmerecida em um conjunto de paredes grotescas; o odor asqueroso que poluía o ar adentrando-lhe ao nariz fino, outrora farejador do mais requintado perfume parisiense. Disputando espaços entre os ninhos de ratos, a ameaça constante da doença impregnada, o leque caído em meio às poças que possuíam a ela todas as cores que poderia distinguir, exceto a da pura água consumível com a qual poder-se-ia banhar. E, por deus, como aquilo a agradava.

Onde repousaria a sua bela donzela, agora, tão logo lhe roubada a essência e usufruídos todos os encantos, senão no fundo de la Seine? Oh, como doía-lhe desfazer-se de tamanha beleza como aquela. Ao pálido pescoço marcava-se o último beijo, recortado em sua nudez explicita. E que obra de arte, que maravilhosa sensação de êxtase tomava-lhe por toda a extensão corpórea ao momento que deixava-lhe vagar, indefinidamente! Eram tempos em que a escuridão reinava culminante por decreto e lei, e ser o Senhor dos Tempos talvez não lhe fosse assim, tão amofinado.

domingo, 3 de outubro de 2010

Comedie a vieţii.

Estou presente no teu medo e nos cantos obscuros entre as paredes rígidas dos teus aposentos. Eu sou a tua infância desestruturada e o teu fim questionável. Eu te protejo do ranger do mundo e te empurro rumo ao abismo envenenado. Eu te encorajo a tomar o caminho mais confortável e te espero no fim da estrada tortuosa. Eu sou as tuas lágrimas e o sangue que vaza tuas veias. Estou presente no teu sonho doce e no teu temível pesadelo. Eu sou as mãos que matam, as ataduras que ferem e o dedo enviesado no gatilho. Eu sou a tua estória descrita em detalhes.

Sorri-me, os olhos que matam. Estou disposto a confrontá-los nos teus mais desígnios desprazeres. Encontro os teus desejos no fundo de pilhas suntuosas repletas de lixo; os teus objetivos nulos repelem toda a tua grandeza, inerte em vozes estrangeiras e vazias. Tom sobre tom. Estou presente em cada nota desferida no piano gotejado em sangue, estou presente em cada célula solitária e em cada conjunto de decepções carnais. Eu sou o ar destrutivo que enche-te os pulmões a cada respiração intricada. Eu sou o caminho que tu decides tomar.

Pois no fim, caríssimos, me é designado a irrevogável repulsa e o descrever de cada cena. Todas as vossas vidas destruídas em pedaços insignificantes e costuradas em meio a palavras maquinadas. Este é o meu cargo até o fim dos tempos. Contemplem, pois, o primeiro ato e desprendam-se dos vossos medos risíveis. Todos os finais são, em suma, bastante semelhantes.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Retalhos, sombras e vestígios.

Vazias as veias, vazio o corpo, a ausência da alma.
Fora-me vetada a capacidade de frustrar-me e derramar dos olhos doces e quentes lágrimas de pesar. Esculpia a mim mesmo a imagem de tantos outros que por estes vales caminharam deixando por entre os trechos devastados vestígios de seus valores, pouco estimados neste mundo, carregando nos olhos os fragmentos de toda a bravura, toda a honra e todos os costumes – a serem abandonados um a um, com a decorrência tola de uma flecha errônea ou uma faca que lhes arrancava fora o coração, ainda palpitante. E que banquete!, diriam os nobres. Para os que já estiveram no inferno e lhe deram as costas, ser atingido por um projétil nojento era quase como uma ofensa carregada de um humor sutil.

Nós habitamos cada fresta pútrida desta cidade e amamos cada pedacinho de tudo em que se repouse as obras putrefatas de ambição humana não recompensada; desde o primeiro esboço sobre a estrutura de madeira até a última demão de tinta que viria a descascar com o passar de uma média anular relativamente curta, aos olhos terrestres. Ao meu titulo de observador, não era atribuído que lhes demonstrasse afeto ou denotasse quaisquer detalhes que me apegassem aos teus movimentos sutis, mas, querido, todos acabarão vindo ao meu encontro, cedo ou tarde.

Todos nós estamos respirando a morte – mas somos poucos os que detectam a sua presença na ausência de todas as outras coisas, e conflitamos-na em um jantar elegante sob o manto da noite.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Do ato de observar.

A soberania englobava-nos a cabeça. Relutei por repousar sobre aquele trono, padecendo as necessidades mortíferas do reino que subsistia sob minhas pálpebras. Peças de xadrez esperando para serem movidas, incapazes de caminharem sozinhas por uma ou duas casas sem auxilio prévio.

A raça humana me envergonhava.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Livre Arbítrio.

Em um atento condicional, revolvi os meus ilícitos projeteis. Sob as duas torres, silenciava o suplicar emocional da contida raça humana. Uma recusa indiferente de prostrar-se passo a frente, e me faria reconhecer-lhe; os braços tomados de massa muscular, irrevogavelmente obtida em teus anos mártires sobre a face da Terra, esforçando-se para manter oculta a tua verdadeira natureza. Pousou teus olhos sobre o meu próprio avatar, vagando impiedosamente cada centímetro daquela carcaça humana, os mesmos antigos costumes, aprisionados sob uma solução de partículas estruturadas, agora liderando a comanda revolucionária daqueles que gritavam por vingança. Poderia provar-lhe, sem quaisquer resquícios resolúveis de cordialidade e simpatia, que o superava em teus objetivos simplórios. Meus olhos aprofundaram-me por detrás de tua mascara, compenetrando-lhe a alma, sucumbindo-no aos ourives que bravamente evadiam-lhe os pensamentos. Roubava-lhe a essência, desfrutando de tua ordinária condição submissa. Abordava-no, arrancando-lhe a força de suas recusa sobrenatural. Oprimia-no, encaixando-o na reles definição que mais temia e detestava. Mentalmente provocava-no, trocando toques e amaldiçoando caricias. Entregava-lhe o poder da escolha, e eis que então entregava-se por completo aos teus temores ocultados.

(fortemente influenciado pelo livro: a batalha do apocalipse, de eduardo spohr)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Anjos Caídos.

A sombra do abismo projetava-se contra a minha janela. De frestas mancomunadas ao infinito, podia discernir o sussurrar do vento, assobiando-me palavras perdidas, sobressaltando segredos ocultados. Escondia-me por detrás de metáforas enviesadas, mentiras bem formuladas, e um cálice do liquido vermelho que apaziguava o ardor horrendo da situação. Ainda sentia a textura das teias grotescas, dos lábios rachados e das mãos suplicantes. A maldição, gritando-me aos ouvidos. As asas quebradas, prostrando-se contra meu libidinoso alvorecer. A condenação às dores subumanas, meu próprio cárcere constituído de epiderme e ossos. A necessidade grotesca de uma alma.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Da morte.

Recostava-se contra a muralha de tijolos mal-colocados. Abordando, aturdido, resquícios do orgulho ferido que abandonavam-no aos poucos. O vento cortava o ar, repousando, ríspido e devasso, contra tua face ferida. Deleitava-se ao sentimento da dor, que ia deixando teu corpo em ofegos e murmúrios sutis, esboçando em um traço abstrato a leveza de uma alma, libertando-se vagarosamente de sua carcaça humana. Observava-o em meio a um deserto de sensações (e construções), caindo e sucumbindo as eminentes trajetórias que eram-lhe traçados de impasse. Remanesceria ali, apodrecendo sob o cair da neve, tingindo-lhe os fios de cabelo num grisalho artesanal.
Tão fácil que tornava-se tedioso.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Aos amantes do caos e povoadores da destruição

Jamais haveriam de desfrutar da textura hígida daqueles anjos, ávidos e sutis, contra o toque frigido de mãos mortas. Poderíamos supor razões e confronta-las com analises obscenas, se em antemão não recebêssemos o hostil som do silêncio, cujo constava de suprema força quanto a destila-los em vagos milhares de peças reclusas.

Por dentre outras pútridas ações, talvez o tempo os fizesse gostar daquela cidade. Da podridão insaciável, claramente exalada em teus poros, e do clima gélido, docemente esbofeteando-lhes a face. Era como alimenta-los de olhos sedentos, ora desfrutando pequenos prazeres, enquanto permitiam-se caminhar por entre arranha-céus, tocando as nuvens em sinfonia, ora reprimindo-lhes por passadas tão largas e suposta alegria, parecendo carimbar-lhes a face. Não havia resposta a estes devaneios, afundavam-se em pequenas lamurias, quando por fim sentiam-se deturpar.

Jamais afáveis, venturosos, apenas impenetráveis e cruéis, em busca de um perdão inexistente. Inexistiam. Era como pedi-los um adeus e encontra-los por detrás de rubras cortinas de seda, lamentando suas perdas. Havia neles uma réstia de tolice, falta de classe e visíveis falhas em planos. Tuas íris não reluziam aos casacos que vestiam-lhes no inverno, pois em teus peitos ainda reinava uma pontada, escondida, de calor. Da pose que insistiam em apontar, perdiam-se. Eram fracos. E enfraqueciam e enfraquecer-se-iam a cada instante existencial de seus corpos assolados.

Morreriam, e talvez por fim sentissem o doce toque daqueles bondosos anjos, empurrando-lhes num abismo infinito de culpas e remorsos.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

De todas as coisas que não poderia compreender.

Do instrumental de Montgomery fazendo trilha ao, agora inaudível, sacolejar do trem nos trilhos. Dos destinos inexistentes: Era apenas gratificante observar o declive e a podridão que aos poucos contaminava aquela cidade, recolhendo os pequenos pedaços de vida que espalhavam-se por todo o local, aguardando a redenção de todos os outros. Da adaga que atravessara o teu peito ou do sangue que jamais escorrera, de todas as outras coisas que ansiara para rever porquanto adormecesse, aquelas noites frias e remotamente agradáveis. Do chorar e do recear ser descoberto, como escondendo-se sob o tecido fino e sentindo a dor espalhar-se por todo um ele. No fundo, havia apenas uma concentração de energia sexual exasperada, aguardando ser consumada. Dos alçares de navios e das tenras noitadas às estrelas. Dos garotos e das garotas. Dos olhares vazios e dos comandos ao vento. Das rimas que se perdiam entre o doce, o amargo, e o salgar das lágrimas quando chocando-se aos seus lábios. De todas as palavras que nunca chegaria a ouvir. Dos sentidos, perdendo-se nos comprimidos sob o colchão, de todos os segredos que guardavam aquelas paredes. Da psicopatia, neurologia, sociologia, geografia. Dos cálculos mentalizados e dos pequenos adereços. De todo o luxo e de toda a sujeira, das coisas que lhe eram escondidas, de todas as faces e palavras perdidas, de todas as cartas e suspeitas omitidas. Dos afagos e dos sorrisos, das noticias e dos anúncios, do café com creme ao pé da cama e de tudo o que lhe era agradável.

Seria engraçado se não fosse tão cruel: Era quase irônico. Sentia o prazer apodrecer a tua carne, e todo o sangue que manchava-lhes o travesseiro, apenas para banhar-lhe a face. De cada singular “adeus” que reprimira àquelas pobres almas, de todo o afago que lhes roubara antes do teu repouso eterno. De toda a revolta e de todos os gritos, de tudo o que lhes era reprimido antes do nascer do sol. Tão sutil quanto podia ser, e tão simplesmente real. Tão simples quanto o fim da tarde, em teu mais dourado esplendor. Dos amores que jamais poderia roubar e de todas as coisas que não poderia entender.