Do instrumental de Montgomery fazendo trilha ao, agora inaudível, sacolejar do trem nos trilhos. Dos destinos inexistentes: Era apenas gratificante observar o declive e a podridão que aos poucos contaminava aquela cidade, recolhendo os pequenos pedaços de vida que espalhavam-se por todo o local, aguardando a redenção de todos os outros. Da adaga que atravessara o teu peito ou do sangue que jamais escorrera, de todas as outras coisas que ansiara para rever porquanto adormecesse, aquelas noites frias e remotamente agradáveis. Do chorar e do recear ser descoberto, como escondendo-se sob o tecido fino e sentindo a dor espalhar-se por todo um ele. No fundo, havia apenas uma concentração de energia sexual exasperada, aguardando ser consumada. Dos alçares de navios e das tenras noitadas às estrelas. Dos garotos e das garotas. Dos olhares vazios e dos comandos ao vento. Das rimas que se perdiam entre o doce, o amargo, e o salgar das lágrimas quando chocando-se aos seus lábios. De todas as palavras que nunca chegaria a ouvir. Dos sentidos, perdendo-se nos comprimidos sob o colchão, de todos os segredos que guardavam aquelas paredes. Da psicopatia, neurologia, sociologia, geografia. Dos cálculos mentalizados e dos pequenos adereços. De todo o luxo e de toda a sujeira, das coisas que lhe eram escondidas, de todas as faces e palavras perdidas, de todas as cartas e suspeitas omitidas. Dos afagos e dos sorrisos, das noticias e dos anúncios, do café com creme ao pé da cama e de tudo o que lhe era agradável.
Seria engraçado se não fosse tão cruel: Era quase irônico. Sentia o prazer apodrecer a tua carne, e todo o sangue que manchava-lhes o travesseiro, apenas para banhar-lhe a face. De cada singular “adeus” que reprimira àquelas pobres almas, de todo o afago que lhes roubara antes do teu repouso eterno. De toda a revolta e de todos os gritos, de tudo o que lhes era reprimido antes do nascer do sol. Tão sutil quanto podia ser, e tão simplesmente real. Tão simples quanto o fim da tarde, em teu mais dourado esplendor. Dos amores que jamais poderia roubar e de todas as coisas que não poderia entender.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
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