sábado, 27 de fevereiro de 2010

Anjos Caídos.

A sombra do abismo projetava-se contra a minha janela. De frestas mancomunadas ao infinito, podia discernir o sussurrar do vento, assobiando-me palavras perdidas, sobressaltando segredos ocultados. Escondia-me por detrás de metáforas enviesadas, mentiras bem formuladas, e um cálice do liquido vermelho que apaziguava o ardor horrendo da situação. Ainda sentia a textura das teias grotescas, dos lábios rachados e das mãos suplicantes. A maldição, gritando-me aos ouvidos. As asas quebradas, prostrando-se contra meu libidinoso alvorecer. A condenação às dores subumanas, meu próprio cárcere constituído de epiderme e ossos. A necessidade grotesca de uma alma.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Da morte.

Recostava-se contra a muralha de tijolos mal-colocados. Abordando, aturdido, resquícios do orgulho ferido que abandonavam-no aos poucos. O vento cortava o ar, repousando, ríspido e devasso, contra tua face ferida. Deleitava-se ao sentimento da dor, que ia deixando teu corpo em ofegos e murmúrios sutis, esboçando em um traço abstrato a leveza de uma alma, libertando-se vagarosamente de sua carcaça humana. Observava-o em meio a um deserto de sensações (e construções), caindo e sucumbindo as eminentes trajetórias que eram-lhe traçados de impasse. Remanesceria ali, apodrecendo sob o cair da neve, tingindo-lhe os fios de cabelo num grisalho artesanal.
Tão fácil que tornava-se tedioso.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Aos amantes do caos e povoadores da destruição

Jamais haveriam de desfrutar da textura hígida daqueles anjos, ávidos e sutis, contra o toque frigido de mãos mortas. Poderíamos supor razões e confronta-las com analises obscenas, se em antemão não recebêssemos o hostil som do silêncio, cujo constava de suprema força quanto a destila-los em vagos milhares de peças reclusas.

Por dentre outras pútridas ações, talvez o tempo os fizesse gostar daquela cidade. Da podridão insaciável, claramente exalada em teus poros, e do clima gélido, docemente esbofeteando-lhes a face. Era como alimenta-los de olhos sedentos, ora desfrutando pequenos prazeres, enquanto permitiam-se caminhar por entre arranha-céus, tocando as nuvens em sinfonia, ora reprimindo-lhes por passadas tão largas e suposta alegria, parecendo carimbar-lhes a face. Não havia resposta a estes devaneios, afundavam-se em pequenas lamurias, quando por fim sentiam-se deturpar.

Jamais afáveis, venturosos, apenas impenetráveis e cruéis, em busca de um perdão inexistente. Inexistiam. Era como pedi-los um adeus e encontra-los por detrás de rubras cortinas de seda, lamentando suas perdas. Havia neles uma réstia de tolice, falta de classe e visíveis falhas em planos. Tuas íris não reluziam aos casacos que vestiam-lhes no inverno, pois em teus peitos ainda reinava uma pontada, escondida, de calor. Da pose que insistiam em apontar, perdiam-se. Eram fracos. E enfraqueciam e enfraquecer-se-iam a cada instante existencial de seus corpos assolados.

Morreriam, e talvez por fim sentissem o doce toque daqueles bondosos anjos, empurrando-lhes num abismo infinito de culpas e remorsos.